Ao sentir a humilhação de ficarem de fora, apesar de terem financiado em grande medida a Ucrânia nestes quase cinco anos de guerra com os russos, alguns líderes europeus estão a exigir entrar na sala, especialmente da Polónia, França, Alemanha e Reino Unido.
Como um balde de água fria, a italiana Giorgia Meloni já veio acusar os europeus de não terem uma voz audível em Moscovo e em Washington, naquilo que é uma crítica clara a Kaja Kallas, a chefe da diplomacia europeia e, ao mesmo tempo, a maior defensora da continuação da guerra dos ucranianos com Moscovo.
Se se confirmar que os europeus não conseguem entrar na sala onde vai decorrer esta ronda negocial, que é uma vitória de Donald Trump, tendo o próprio já garantido que haverá um "maravilhoso acordo de paz" que "até vai incluir os europeus", os grandes derrotados serão os líderes das estruturas de comando europeis.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula Leyen, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e Kaja Kallas, que não conseguiu em cinco anos encontrar uma plataforma de diálogo com Moscovo, visto como essencial pela generalidade dos analistas para acabar com o conflito, são as caras do falhanço europeu.
Apesar de os europeus serem hoje os maiores financiadores de Kiev, depois de Trump ter substituído Joe Biden na Casa Branca, em Janeiro de 2025, ficando de fora das negociações serão, como foram no passado, uma força motriz sempre presente para fazer descarrilar qualquer processo de paz porque a ter sucesso, seria a demonstração das suas más opções diplomáticas.
Certo agora é que ambos os contendores vão estar em Abu Dhabi a discutir as condições para a paz, com mediação norte-americana, que será sempre, a acontecer, decidida em última análise, com um encontro tête-à-tête entre Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky.
E foi o Kremlin, pela voz do próprio Presidente Putin, que confirmou este encontro nos dias 10 e 11, após um encontro esta sexta-feira, 06, do Conselho de Segurança da Federação Russa, sabendo-se que Kiev vai estar presente, apesar do protesto pela ausência dos seus aliados europeus.
Na perpectiva dos analistas mais atentos, como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, ou Douglas MacGregor, ex-coronel e Conselheiro militar da primeira Administração Trump, este tipo de encontros são apenas para entreter Donald Trump porque nem russos nem ucranianos estão preparados para as cedências gigantescas que são exigidas de um para o outro lado da barricada.
Os russos, como se sabe com pormenor desde Julho de 2024, pela voz de Putin, exigem um acordo global na segurança europeia, a absoluta neutralidade ucraniana fora da NATO, o reconhecimento de Kiev das regiões anexadas, a Crimeia em 2014, e Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhia, em 2022, o respeito constitucional pela língua e religião russas no que restar da Ucrânia e a desmilitarização do país até ao limite mínimo seguro para a Federação.
Nada disto parece, pelo que se ouve em Kiev, aceitável para Zelensky, até porque o Kremlin também insiste na realização de eleições gerais na Ucrânia, que já estão a ser adiadas desde Maio de 2024.
Entre a extensa lista de condições ucranianas, estes recusam liminarmente ceder territórios de forma permanente, exigem um cessar-fogo prévio para começar a falar de paz, impõem um tratado de segurança que garanta a presença de forças militares europeias e norte-americanas como tampão para o risco de novas investidas russas e só aceitam abdicar da NATO por um prazo a definir na mesa das negociações mas não para sempre, além de fazerem questão de a União Europeia permitir o acesso imediato de Kiev, o que será um quebra-cabeças gigante, mas para Bruxelas, não para Moscovo.
A demonstração clara da forma como russos e ucranianos estão intrincheirados nas suas posições é que desde que se começou a falar deste encontro, especialmente Donald Trump, os ataques russos com mísseis balísticos, de cruzeiro, drones e bombas planadoras intensificaram-se, especialmente contra a lógistica e a infra-estrutura energética ucraniana, com Kiev a multiplicar os ataques às refinarias russas, que é onde mais afecta a economia russa, como sublinha Zelensky, chamando-lhe "sanções pelo fogo".
Outro factor em sentido contrário às pretensões de Trump foi a sua derrota catastrófica nas eleições de terça-feira, 03, onde perdeu as maiorias que o seu Partido Republicano detinha nas duas câmaras do Congresso (ver links em baixo), porque a oposição democrata, que assume os lugares no Senado e nos Representantes em Janeiro, é claramente a favor do apoio militar e financeiro a Kiev, o que pode deixar o Presidente de mãos atadas e com apenas dois meses para ganhar um lugar na Histórico como o "fazedor da paz" na Ucrânia, como promete desde que chegou à Casa Branca.













