Durante algumas semanas, o mundo parece parar para acompanhar os jogos. Milhões de pessoas vestem as cores dos seus países, celebram vitórias e lamentam derrotas. Contudo, por detrás da emoção dos adeptos existe uma realidade menos visível: o Mundial é uma das maiores operações económicas do planeta.
A FIFA transformou-se numa organização com receitas comparáveis às de grandes multinacionais. Direitos televisivos, patrocínios globais, licenciamento de marcas, marketing digital e hospitalidade corporativa geram milhares de milhões de dólares. O futebol tornou-se uma indústria global e o Campeonato do Mundo é o seu principal produto.
A edição de 2026, organizada conjuntamente pelos Estados Unidos da América, Canadá e México, representa mais um passo nesta trajectória de expansão. Pela primeira vez, o torneio reúne 48 selecções nacionais, aumentando o número de jogos, os mercados envolvidos, as audiências televisivas e, naturalmente, as receitas.
Mas será que os países organizadores beneficiam sempre deste fenómeno?A resposta é mais complexa do que parece.
Ao longo das últimas décadas, vários estudos demonstraram que os impactos económicos dos grandes eventos desportivos nem sempre correspondem às expectativas criadas durante as fases de candidatura. Em muitos casos, os benefícios associados ao turismo, ao consumo e à visibilidade internacional coexistem com elevados custos públicos em infra-estruturas, segurança, mobilidade urbana e manutenção de equipamentos.
Existem exemplos de estádios construídos para Mundiais que, após a competição, passaram a ser pouco utilizados, transformando-se em símbolos de investimentos sem retorno proporcional. A história recente demonstra que nem todo o legado anunciado se converte em desenvolvimento sustentável.
Por outro lado, quando existe planeamento estratégico, os resultados podem ser bastante positivos. Infra-estruturas concebidas para responder a necessidades permanentes da população, sistemas de transporte eficientes, promoção internacional do turismo e dinamização da actividade empresarial podem transformar um evento desportivo num verdadeiro catalisador de crescimento.
É precisamente aqui que reside uma das grandes lições para África.
O continente possui uma população jovem, apaixonada pelo desporto e cada vez mais integrada nos fluxos globais de comunicação e consumo. Contudo, a organização de grandes eventos não deve ser encarada apenas como uma questão de prestígio ou afirmação política. Deve constituir uma ferramenta de desenvolvimento económico, inclusão social e valorização do capital humano.
O desporto moderno já não vive apenas de resultados dentro das quatro linhas. Vive também da capacidade de gerar emprego, atrair investimento, estimular o turismo, promover inovação e criar oportunidades para as comunidades.
Neste contexto, importa olhar para o Mundial não apenas como um torneio de futebol, mas como um laboratório económico à escala planetária. Cada estádio construído, cada contrato celebrado, cada transmissão televisiva e cada patrocinador envolvido revelam que o desporto se tornou uma das actividades económicas mais relevantes do século XXI.
O adepto vê o golo, gestor observa a receita, governante procura o legado e o cidadão espera que os investimentos realizados produzam benefícios duradouros para a sociedade.
Talvez esta seja a principal reflexão que o Campeonato do Mundo nos oferece: o futebol continua a ser paixão, mas tornou-se igualmente economia. E, como acontece em qualquer grande negócio, o verdadeiro sucesso não se mede apenas pelo vencedor em campo, mas pela capacidade de transformar recursos em prosperidade colectiva.
*Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga
Lei em campo: Uma bolada de dinheiro
Há muito que o Campeonato do Mundo de Futebol deixou de ser apenas uma competição desportiva. Hoje, é simultaneamente um espectáculo global, uma plataforma diplomática, um gigantesco negócio e um instrumento de influência económica e política.
